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O sal e o lírio é o mais recente e o sétimo livro publicado da escritora guaxupeana Francisca Vilas Boas, radicada no Rio de Janeiro desde 1973, onde se pós-graduou em Letras e Direito. Por mais de 30 anos, ela lecionou Literatura Brasileira e Língua Portuguesa. Começou na Fafig (atual Unifeg) e no Colégio Estadual de Guaxupé (Ginásio).

Os dois primeiros livros de contos - O Sabor do Humano e Roteiro de Sustos – foram premiados e editados pela Imprensa Oficial de Belo Horizonte, em 1971 e 1972. Ela também participou de antologias e se tornou conhecida como uma das pioneiras, no Brasil, do gênero miniconto, juntamente com os escritores Elias José, Sebastião Rezende e Marco Antônio Oliveira. Atualmente, a Casa de Cultura de Guaxupé desenvolve um projeto de valorização e resgate do miniconto originado no município, mediante registros diversos sobre esse pioneirismo.

Francisca só voltou a publicar em 2011, depois de exercer as funções de advogada, professora e oficiala de Justiça Federal no Rio de Janeiro. Sob indicação do MEC e com bolsa da OEA, ela representou o Brasil no II Curso Iibero-americano de Educação a Distância, na Espanha (UNED), em 1983 e 1984. O retorno à literatura foi com o livro de poemas A Asa e o Osso (Ed. Galo Branco - RJ). A partir de 2014, publicou quatro livros pela Editora Scortecci-SP, incluindo o mais recente.  

Das Ilusões e da Morte (contos) e Palavras e Sombras (poemas) tiveram edição bilíngue: português / espanhol. Ambos foram autografados na 1ª Flig – Feira de Literatura de Guaxupé. Francisca Vilas Boas foi a primeira patrona homenageada neste evento.

A Sombra dos Inventados (contos) é de 2016. Agora, o sal e o lírio retoma a linguagem poética e revela qualidades ainda mais apuradas. Poucas palavras dizem muito. Gestos de sal e feridas caminham lado a lado com um silente e marcante eu lírico.

Lirismo e salinidade

Em o sal e o lírio, a poetisa Francisca Vilas Boas escreve sobre afetos germinais, ilusões, ilhas inacessíveis de encontros, corpos que enrugam a paisagem. E sobre aqueles que foram provar das fábulas e se extraviaram.

Familiarizada com as dobras do tempo, do desrumo, do calendário das almas e dos inventários do abandono, a poetisa questiona: “-a ferida sonha? (...) - o corpo é seu refém?”

Enquanto isso, “deus se tornou imagem de museu” e há um forte sal nos súbitos da rua. Um homem mata e tinge de sangue o branco do espaço, e o caos dessangra.

As imagens poéticas dos pomares da infância e os lírios que refletem o arco-íris parecem fazer alusão a Guaxupé e Minas Gerais. O Rio de Janeiro pode ser encontrado entre outras belezas naturais e as máquinas do mundo. Em qualquer lugar há solidão e “a barca da morte atravessa o deserto das almas.” Ainda bem que as mulheres (incluindo a autora) emprestam doçuras ao sombrio.  

A gramática do mundo foi deletada, na visão da escritora. Sem perder o refinamento literário, Francisca registra a atual (in)comunicabilidade humana, em que o diálogo agoniza. No entanto, com doçura farta e uma pitada de sal, há grande sensibilidade ao descrever um amor de pai no primeiro contato com o filho - predestinado “a reescrever- te, a semear-te.” A mulher, tão traduzida e tão enigmática, ganha referências poéticas de beleza e fortaleza. É fruto sobre a terra a urdir sua história de silêncios.  

Vasto, profundo e envolvente, o sal e o lírio pode ser definido em um verso do poema ... sempre acontece: “o homem caminha agasalhado do frio no próprio abraço.”

O novo livro de Francisca Vilas Boas está à venda em bancas de jornais e revistas de Guaxupé (a partir de 08.09).

Sílvio Reis, jornalista. 

 

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